ITUAÇU

24.05.2010

Leonardo Oliva

Foto - ITUAÇU

Município se despede de Dr. Ordálvio

No ano de 2009, por ocasião da cobertura dos festejos do aniversário de Ituaçu, promovidos pela administração do prefeito Juvenal Wanderley Neto, tivemos a oportunidade de conhecer Ordálvio Souza Guimarães, ou simplesmente Dr. Ordálvio. O encontro se deu quando perguntamos a algumas pessoas quantos anos Ituaçu estava fazendo. Depois de muitas informações desencontradas, finalmente alguém falou: pergunta para Dr. Ordálvio. Fomos então ao seu encontro e ele nos deu uma verdadeira aula sobre a história do município, enfatizando que a polêmica envolvendo a idade de Ituaçu vem de muitos anos. Para ele, o município tinha 142 anos, mas estava comemorando 112 anos, isto porque, em 1867, portanto há 142 anos, a então Vila de Brejo Grande foi elevada à condição de município com o nome de Nossa Senhora do Alívio do Brejo Grande. A Lei Estadual, que mudou o nome para Ituaçu é de 26 de agosto de 1897. Daí se comemorar 112 anos.

Esta semana, recebemos a notícia do seu falecimento, ocorrido no dia 17 de maio, na cidade de Feira de Santana. Um momento triste para toda a comunidade, tendo em vista que Dr. Ordálvio era muito querido por todos. Na condição de médico, foi o primeiro secretário de saúde de Ituaçu e responsável pela inauguração do Hospital de Ituaçu e, posteriormente, pela sua municipalização. Além de médico, Dr. Ordálvio era também um historiador nato, contador de histórias, poeta, escritor, matemático, físico, médico e, acima de tudo, um ser humano fantástico.

Que o seu exemplo de vida possa ser seguido pelos mais jovens e os seus ensinamentos levados adiante. Durante a semana, mantivemos contato com o seu irmão Osvaldo (Xodó), que nos enviou uma biografia de Dr. Ordálvio, transcrita nesta matéria. Conversamos também com o advogado, sociólogo e cordelista José Walter Pires, que rapidamente se prontificou a redigir algo sobre Dr. Ordálvio, em texto também transcrito nesta matéria. Zé Walter ainda nos enviou um pequeno texto encaminhado pelo seu irmão, Moraes Moreira, que também integra esta matéria.

Descanse em paz Dr. Ordálvio e, quem sabe, como homenagem póstuma não se corrija o erro histórico e, finalmente, se proclame a verdadeira idade do município de Ituaçu. Era este um dos seus maiores desejos.

ADEUS AO MEMORIALISTA ORDÁLVIO

Por José Walter Pires

Ordálvio Souza Guimarães, ituaçuense de boa cepa, médico, memorialista apaixonado pela sua terra natal, profundo conhecedor das suas origens, da sua gente, dos seus costumes, foi-se do nosso convívio, deixando marcas indeléveis de saudade por todos os lados.

Tenho dito e repito que não vejo raça nenhuma em morrer. Aliás, não conheço ninguém que queira morrer de bom grado, ainda que vítima de um imerecido sofrimento.

Mas, para nosso consolo, Ordálvio foi um desses contrariados mortais que permanecerá para sempre caminhando pelas "praças, ruas, becos e caminhos de Ituaçu", como batizou o seu último livro, não como mero notívago, andarilho desnorteado ou um desses palradores de plantão, mas como um dos mais significativos atores e autores de uma história contada e decantada em prosa e verso, pois as suas narrativas sempre foram impregnadas de emoções e sentimentos capazes de envolver os que tiveram a oportunidade de ler o que ele escreveu, ou de ouvir as suas preleções, suas palestras, suas aulas, ou mesmo em um bate-papo com os amigos mais diletos por onde passava, em especial, na sua bucólica Ituaçu.

Existem, sim, pessoas insubstituíveis pelo que foram ou fizeram ao longo das suas vidas. Foi esse o sentido de um texto lido recentemente, onde o autor relacionava na sua metáfora, nomes de pessoas com essa condição, independentemente dos seus momentos polêmicos, das suas fragilidades humanas, dos seus defeitos. Ordálvio foi um desses. Nada impediu que ele fosse quem foi, como cidadão por inteiro, como pessoa do bem, como ser humano e profissional consciente.

Para encerrar esta rápida mensagem de adeus, incorporo o e-mail enviado por um dos seus amigos e admiradores Moraes Moreira, tão logo tomou conhecimento desse pesaroso acontecimento:

"Através do meu irmão Ze Walter, recebi a notícia do falecimento do amigo/parente Ordálvio, um Ituaçuense como poucos, que com amor e inteligência soube honrar a nossa terra, como filho, profissional, escritor e guardião da nossa memória. Os seus livros me emocionaram, e até me deixaram surpreso. Guardo-os em casa como verdadeiros documentos que na minha opinião deveriam ser mais valorizados por uma cidade que em outros tempos sempre se destacou das vizinhas, pelo lado cultural. Como diz o nosso grande Nelson Cavaquinho, as homenagens em vida são mais valiosas. De qualquer forma guardarei pra sempre na minha lembrança, o prazer de encontrar Ordálvio, nas minhas idas a Ituaçu. A ultima vez, foi no São João do ano passado, quando recebi a sua visita que para mim, valeu por muitas que não tive. Como filho de Ituaçu, me sinto orgulhoso desse grande conterrâneo, que vai deixar saudades, mas que jamais será esquecido. Que Deus o tenha.

MORAES MOREIRA


BIOGRAFIA DE ORDÁLVIO SOUZA GUIMARÃES

31 de agosto de 1940 a 17 de maio de 2010

Ordálvio Souza Guimarães, nascido às quatro e meia da manhã do dia 31 de agosto de 1940, em Ituaçu/Ba, filho de Maria Adálvia Souza Guimarães (D. Dalvinha, como era chamada) e Ormindo Guimarães Souza. Tinha como irmãos Ornilton, Ordálio, Mirtes e Osvaldo (Xodó).

Estudou na Escola Estadual Rodrigues Lima em Ituaçu até os 15 anos de idade. Fez o ginasial em Salvador, no colégio interno Salesiano e concluiu o científico no Instituto Normal Isaias Alves.

Trabalhou quando estudante no Banco Mineiro de Produção, conhecido Banco de Minas Gerais, o que auxiliava a custear seus estudos e em 1965 ingressou no curso de Medicina na Escola Bahiana de Medicina, em Salvador, e graduou-se em 3 de dezembro de 1971.

Depois de graduado, em julho de 1972 mudou-se para a Cidade de Morro do Chapéu onde clinicou por mais de 8 anos. Lá desenvolveu campanhas e projetos na área de saúde. Fundou a clínica AMO, lutou e conseguiu a reabertura do hospital local.

Posteriormente, em 1981, retornou a Ituaçu e permaneceu até ser convidado a trabalhar na cidade de Caldeirão Grande por 2 anos. Em Ituaçu Dr Ordálvio, como gostava de ser chamado, exerceu sua profissão com brilhantismo, dedicação, competência e coragem para driblar as dificuldades que existiam na região. Foi 1º Secretário de Saúde em Ituaçu. Inaugurou o Hospital de Ituaçu, onde residiu com sua família para assegurar seu funcionamento e a assistência à população. Municipalizou a Saúde em Ituaçu. Foi Coordenador Regional do antigo INSS. E ainda achava tempo para contribuir com a formação dos estudantes desta cidade, lecionando sem aceitar remuneração, pois sentia prazer em fazê-lo. E o fazia muito bem!

Pai de 9 filhos: Idálvia, Marta, Marbele, Marcele, Ordálvio, Salatiel, Maridalvia,Thales e, por fim, Tainah, e 3 netos: Paloma, Luigi e agora Letícia, partiu para a posteridade às 20:00 do dia 17 de maio de 2010, em Feira de Santana. Enterrado no dia seguinte em sua cidade natal, Ituaçu-Ba, da qual se orgulhava e pela qual se dedicou por quase toda a vida, eternizando-a em seus 3 livros: Diagnóstico do Municipío de Ituaçu; Bandeirantes e Sertanistas na Chapada Diamantina e Ruas, Praças, Becos e Caminhos de Ituaçu.

Um historiador nato, contador de histórias, poeta, escritor, matemático, físico, médico... humano. Esse era Dr. Ordálvio Guimarães. Uma mente invejável! Ele dizia: "eu deveria ser clonado e, só assim, viveria para a eternidade". Não foi clonado mas será eternizado por tudo o que fez e o que representou para todos nós.

 

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Jorge Valério Rocha Gomes (25.05.2010 - 18h06)

Na manhã do último dia 18 de maio, quando soube do falecimento de Dr Ordálvio, me senti na obrigação de comunicar o fato a nossa região, por meio da Rádio Alternativa. Infelizmente, não pude comparecer ao seu sepultamento, mas soube pela sua filha Marbele, que foi um momento muito bonito e emocionante. Ademais, não digo adeus a Dr Ordálvio, porque ele permanecerá em minha lembrança. E reitero a sua pessoa, sinceros agradecimentos por ter me trazido muitas informações sobre os meus antepassados dos Rocha e dos Gomes, bem como uma releitura da Cidade de Ituaçu. Eu que tenho minha existência sendo gravitada para três terras _ Caetité, Brumado e Ituaçu _ escolhi Ituaçu como o melhor lugar, enquanto categoria do espaço geográfico, graças aos escritos do Dr Ordálvio Souza Guimarães. E que a posteridade lhe encha de muita graça, como deve ser a todo homem ou mulher singular. Ao Dr Ordálvio, meus sinceros agradecimentos e meu desejo de eternização da sua pessoa.

André Koehne (22.07.2010 - 06h06)

Ainda derramando uma tardia lágrima de saudade, sinto-me tomado por uma emoção por demais estranha... Afinal, conheci o amigo Ordávio apenas pela voz! Graças às pesquisas do Jorge Valério, pude colaborar com uma busca do Ordálvio que resultara numa lacuna em seu primeiro livro - que foi a fotografia do Barão do Sincorá: eu a tinha, e o intimorato pesquisador procurara por ela toda a vida! A imagem foi, enfim, publicada na obra que lançou em 2009 ("Ruas - Praças - Becos e Caminhos de Ituaçu"). Minha ínfima contribuição, contudo, seria somente o começo de uma troca de informações que experimentamos em longos telefonemas. Na dedicatória que me fez, Ordálvio registou: "Ao personagem mental que desejo conhecer, André Koehne..." Ficou esse desejo mútuo de sairmos do plano puramente mental... O Ordálvio se foi, a notícia me foi dada pelo amigo comum Dió Araújo, deixando em mim este vazio que tristemente já experimentara com o saudoso Mozart Tanajura (também falecido quando manifestávamos o desejo de conhecimento pessoal...) Mas, tendo em mão essas suas palavras, mais uma vez fico com a certeza de que, graças a heróis como ele, a HISTÓRIA DO SERTÃO BAIANO não morre; com sua riqueza desconhecida de muitos, desprezada pelo meio acadêmico - homens como Ordálvio eternizaram em livros nossa memória. Exemplo que, espero, seja seguido sempre. Fico, então, com o sentimento de gratidão por ter, embora de modo tão ínfimo, podido servir ao amigo Ordálvio em seu mister de conservar a memória de nossa gente, de nosso amado chão. Fica, também, a certeza de que sua obra se faz imortal, irradiando pelos tempos a grande centelha de luz que foi sua vida.

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