Ricardo Stumpf
Ricardo Stumpf é arquiteto, reside em Rio de Contas e assina a coluna Recado no Jornal Tribuna do Sertão
Trevas e meio-ambiente
Postado por Ricardo Stumpf em 11.07.2010
Viajando pela chapada neste final de semana, pude observar a grande transformação que a pavimentação de uma estrada pode causar. Povoados antes isolados, servidos por caminhos de terra, se transformam com a chegada do asfalto.
Tudo muda e com a estrada chegam inúmeros outros benefícios, trazidos pelo trânsito de veículos e pessoas que vão passando, interagindo com aquelas povoações antes esquecidas, comprando, vendendo, trazendo novas idéias.
O asfalto vai acabando com uma civilização antiga, que estava ali há séculos, parada, evoluindo muito lentamente e dá lugar ao choque do progresso. Sem dúvida pode-se dizer que o progresso é uma coisa boa na vida das pessoas que estavam longe dele. Mas junto com ele chega um novo padrão civilizatório que no Brasil é muito descuidado com o meio-ambiente e possui padrões culturais e estéticos muito precários.
Se os antigos povoados e vilas se caracterizam pelas casas de adobe, com seus beirais, seus quintais, sua simplicidade digna, que dialoga muito bem com a rua ou caminho que lhe passa defronte, formando um conjunto harmônico, cujos signos principais, baseados em tradições antigas, são a base para o reconhecimento mútuo dos seus cidadãos, no novo padrão desaparece a harmonia, substituída por uma estética oportunista, feita de caixotes sem nenhuma beleza, surgem os muros, os portões de garagem, que vão bloqueando o visual do interior das propriedades, e a rua vai se tornando isolada das casas e as pessoas isoladas umas das outras, e vem o lixo, o descuido com o que está do lado de fora e o egoísmo, que só se importa com o que é de cada um, deixando o coletivo para o poder público, incapaz de substituir com seus poucos recursos, a responsabilidade comunitária que havia antes, sobre tudo e todos.
Se é preciso vencer as trevas com o progresso, é preciso também estabelecer novos padrões de civilização e urbanização, com normas muito mais rigorosas a respeito das construções e também implementando iniciativas que reforcem o espírito coletivo das comunidades, evitando que as famílias se isolem e passem a agir de forma predatória, prejudicando o meio-ambiente natural e social de onde vivem.
ETE de Brumado
Muito boa a campanha dos alunos e professores do Colégio estadual de Brumado, que fazem um abaixo-assinado para reivindicar a construção de uma estação de Tratamento de esgotos para a cidade, a fim de despoluir o Rio do Antonio.
É incrível o descaso das nossas autoridades municipais com a saúde dos rios que cortam as cidades. Parece que eles acham muito natural que eles se tornem esgotos à céu aberto. Nenhuma responsabilidade sobre o meio ambiente, senhores prefeitos?
Será possível que os alunos do Colégio vão ter que lhe ensinar que isso é crime?
O mesmo pode ser dito do lixo. Poucas cidades fazem a coleta seletiva e o tratamento adequado e quando se viaja pelo interior o que se vê é uma vergonheira de lixões à céu aberto. Inclusive na "ecológica" Rio de Contas.
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