José Walter Pires
José Walter Pires é advogado, professor e cordelista. Escreve esporadicamente para o Jornal Tribuna do Sertão.
DE VOLTA ÀS ORIGENS
Postado por José Walter Pires em 02.08.2009
Na última quarta-feira, dia 15, tive o imenso prazer de retornar às minhas origens de infância, em Barra da Estiva, na data do seu aniversário, cuja comemoração constou, basicamente, da inauguração do Centro de Cultura, no antigo mercado municipal, e, ali também, da Biblioteca com o nome da Professora Arnóbia Pires Fernandes, uma das pioneiras da educação naquela cidade.
A razão da minha presença deveu-se ao fato de lá ter residido com os meus pais e manos e feito o meu curso primário, tendo como professoras a Tia Arnóbia, Tia (Dinda) Lourdes e a prima Solange, que significaram para mim um impulso dos mais importantes nessa caminhada em busca do conhecimento, ao longo de minha vida.
Mestras dedicadas, competentes, criativas e de extrema responsabilidade no cumprimento dos seus deveres, num tempo em tudo adverso, em que os recursos didáticos não passavam de um rústico quadro-negro, raros livros, sem qualquer outro material que pudesse facilitar a aprendizagem dos que podiam frequentar a Escola. Carteira duplas, canetas-tinteiro, cadernos 2 de Julho, trazendo no verso o Hino Nacional e da Bandeira, caixas de lápis de cor, taboadas, cartilhas diversas, era tudo quanto podíamos ter para aprendermos os assuntos do dia-a-dia.
Se me recordo dos livros básicos, a Aritmética de Antônio Trajano, excelente e completa, os livros de Gaspar de Freitas, e, só mais tarde, o maçudo volume de um livro intitulado "Exame de Admissão ao Ginásio", contendo Português, Matemática, História e Geografia, disciplinas básicas para o acesso ao Ensino secundário, após seletivo exame dos Ginásios da Capital, pois, os da Região só começaram a chegar tempos depois.
Barra da Estiva era nesse tempo uma cidade muito atrasada, de costumes primários, com baixo nível de escolaridade e cultural, tendo por economia básica o café, moeda de trocas nas casas comerciais, em razão do mercado garantido desse produto, além de uma economia de subsistência típica do "gerais", vindo de fora tudo mais. Não tinha pecuária, nem qualquer outra forma de exploração econômica. Poucos funcionários públicos, inclusive municipais, sem médicos, profissionais liberais, Padre, nem as famílias cultivam o zelo de mandarem os filhos estudarem fora.
As solenidades cívicas, sociais e religiosas sempre foram muito modestas, muitas das quais sob a liderança das Escolas ou de algumas pessoas que se juntavam para promoverem atividades festivas, peças teatrais, ternos de reis e outras amenidades tão ao gosto daquela população simplória.
Além das minhas tias e prima, destacava-se naquele cenário a figura altiva do Professor Carlos Gumes Fernandes, caetiteense, "Gumes" de tradição intelectual, que se tornou o porta-voz de todos os momentos mais solenes de Barra da Estiva, como orador empolgado e empolgante, defensor intransigente daquela terra adotiva, desde que se casou com a minha tia Arnóbia, político de momentos polêmicos, mas que abraçou com extrema abnegação outras tantas funções, como de mentor cultural, parteiro, conselheiro familiar, boticário, comunicador, comerciante, médico, advogado, enfim, pau para toda obra, como se diz entre nós, sem ambição financeira.
Nos meados dos anos 50 e 60 esse cenário se tornou mais tenebroso. Ocorreu um forte êxodo de inúmeras famílias tradicionais com destino a Vitória da Conquista, Brumado, Jequié e para Brasília, na época da sua construção em busca de melhores condições de vida. Aliás, para Brasília foram inúmeros rapazes, atraídos pela oferta de trabalho, retornando por ocasião do primeiro período de férias, quando, então, começam um namoro como as moças de lá, ainda muito jovens, voltando no ano seguinte, já para se casarem e com elas irem embora da cidade. Umas duas, talvez três tenham ficado sem um marido. Nessa leva se foram todas as minhas colegas de Escola, e quando as encontrava, anos depois, já eram mães de muitos filhos.
As casas vazias foram ocupadas por famílias provenientes da zona rural, e a cidade parecia ter perdido o seu rumo de progresso por inteiro, só ocorrendo uma revolucionária mudança com a chegada dos Padres Virgílio, Neci, de outros não me lembro os nomes, que ali descobriram um paraíso de todos os pecados e virtudes.
Tudo mudou muito repentinamente. Um choque de cultura e costumes. Chegou o Ginásio. Boate. Luzes negras ofuscantes. As novas idéias se misturavam ao embevecimento da população, a cultura cafeeira se modificou com as modernas técnicas de manejo, o comércio se expandiu, a cidade foi se espalhando por todos os seus espaços vazios, extrapolando os tradicionais limites que não passavam da ponte à entrada da cidade às imediações do cemitério, em duas ruas compridas e desalinhadas, além de um becos e ruelas, divididas, a partir do Sobrado dos Pires, por uma fileira de casas comerciais, até às imediações da Igreja Matriz, algumas com traços arquitetônicos semelhantes aos de outras cidades da Chapada Diamantina, em alguns momentos, lembrando o barroco/ colonial. Pena que tenham se modificado em nome do progresso e da modernidade. Assim como o demolido sobrado dos Pires.
Não se pode negar que essa profética contribuição tenha sido o marco divisório da história de Barra da Estiva: antes e depois dos Padres. Aleluia!
Lembro-me que numa das minhas visitas ao meu avo Clímaco Nardes Pires, de quem ainda falarei mais em momento oportuno, comentando as mudanças da Cidade, quando, com sua voz macia e marcada por uma longa existência, respondeu-me, dizendo:
- Vixe, esse menino, já não tem mais cavalo por aqui. Tudo agora é só motocicleta pra cima e para baixo nessas roças todas.
Ele já se assustava, no início dos anos 70, com a quantidade de motos e carros pela cidade. Se um pouco mais tivesse vivido, haveria de ficar estarrecido com essa proliferação, que não parou de crescer a partir daí.
Mudou a política. Ficou bem mais acirrada. Chegou a Comarca. Hospital. Clínicas. Serviços em geral. Fortaleceu-se o comércio. O asfalto aproximou distâncias. Atraiu investidores. Aumentou a população. Surgiram inúmeros empreendimentos privados. Chegou o Ensino Universitário. Diversificaram-se as festividades. Enfim, a cidade é outra, mas que, ainda, mantêm os laivos de sui-generis sociabilidade cristalizados na índole da sua gente.
Naquele dia de aniversário da Cidade, diante de uma multidão concentrada na Praça do antigo Mercado, tomado de profunda emoção, prestei, entre outros, a minha singela homenagem à Tia Arnóbia, cujo nome perenizou-se na Biblioteca Municipal, construída pela atual Gestora Lúcia Viana, que, ao lado do filho Vereador, nos dispensou privilegiada atenção, resgatando, assim, uma dívida da mais lídima cidadania, em face de quem serviu com dignidade e pioneirismo à causa educacional do Município.
Ao lado de familiares queridos, de velhos e novos amigos, de autoridades, do povo que não se incomodou com a fria neblina que caiu nos instantes iniciais da solenidade, depois das criativas apresentações artísticas, as minhas lembranças voaram livres por todos os lugares em que passei na minha infância, deixando-me extasiado naquele momento, sobretudo pela felicidade de poder traduzir as minhas emoções, que, por serem tantas, sobejam nestas ternas palavras.
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Dário Teixeira Cotrim (03.08.2009 - 19h07)
José Walter, Belissimo texto este seu sobre as suas reminiscências. Aliás, são nossas também essas lembranças, principalmente o ensino das primeiras letras. Um amplexo Dário Cotrim
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