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José Ribamar Viegas

José Ribamar Viegas é maranhense, reside em Brumado e escreve crônicas para o Jornal Tribuna do Sertão. Ultimamente esteve sumido por conta da dedicação ao livro "Acredite se quiser", de sua autoria, lançado em 2009.

JOFRINHO MANCADA

Postado por José Ribamar Viegas em 28.02.2010

Uns afirmavam que era pura inconveniência, outros apostavam em mera ingenuidade, o certo é que do nada Jofrinho conseguia criar uma baita situação de constrangimento.

Ainda menino, em Altos, no interior do Piauí, onde nasceu, Jofrinho, no meio de uma aula do curso maternal, levantou a mão e perguntou:

- "Fefessora", padre namora?

- Padre não deve namorar. A igreja católica não permite - respondeu a professora... Mas por que essa pergunta agora, Jofrinho? - quis saber a mestra.

- É que eu vi a senhora ontem passeando de carro com o padre Carlos...

Os coleguinhas de Jofrinho ficaram escandalizados, enquanto a professora, angustiada, apressava-se em esclarecer:

- Pois fique sabendo, Jofrinho, o padre Carlos e eu somos irmãos. E mesmo que não fossemos irmãos, saiba também que nem sempre um casal a passear de carro significa que esteja namorado... E pelo visto, apesar da sua pouca idade, desde já, seria bom você procurar condicionar melhor os seus pensamentos maldosos e inoportunos.

Em Teresina, no primeiro dia de aula do curso ginasial, a professora de português, uma senhora de cor branca, se apresentou e fez questão de apresentar também aos demais alunos da classe seus filhos gêmeos, Neide e Antonio, os dois de pele morena.

Jofrinho levantou a mão pedindo a palavra e fez o seguinte discurso:

- No nosso país, professora, se toda pessoa que tivessem poder aquisitivo fizesse como a senhora, adotasse, certamente não teríamos mais esse flagelo denominado de menino de rua...

A professora, num misto de indignação e constrangimento, retomou ligeiro a palavra, dizendo:

- Saiba, seu Jofrinho, que meu querido esposo é um homem de cor escura e tanto Neide como Antonio são meus filhos legítimos e formamos uma família muito feliz... Também não somos contra adoção e muito menos preconceituosos.

Jofrinho era de rachar a cara de qualquer um de vergonha, menos a dele. Quando vaiado nas suas mancadas, comportava-se como se nada de anormal tivesse acontecido. Realmente um tremendo cara de pau.

Contudo, Jofrinho carregava com ele uma grande virtude. Era estudioso. Um verdadeiro CDF. Gostava de ler e passava boa parte do seu tempo ouvindo música. Orgulhava-se de nunca repetir um ano na escola e de conhecer musicas de grandes compositores brasileiros.

Ainda na capital Piauiense, após concluir o segundo grau, Jofrinho foi aprovado num concurso para assumir uma vaga de auxiliar administrativo em uma grande instituição bancária. No seu primeiro dia de trabalho, numa solenidade que seria rápida, Jofrinho estava sendo apresentado aos seus novos colegas de trabalho, quando adentrou-se ao ambiente uma importantíssima diretora do Banco que estava de passagem em Teresina. A distinta senhora, sentindo que se tratava de uma cerimônia, gentilmente falou:

- Continuem. Não estou aqui para interromper. Pelo contrário, gostaria de ouvi-los... depois darei o meu recado. (Claro que Jofrinho nunca tinha visto aquela mulher).

O gerente da agencia, respeitosamente, falou:

- Senhora Diretora, só estávamos a desejar boas vindas ao o nosso novo colega de trabalho, o senhor Jofre Catanhedes Farias... Para o qual as atenções se voltaram.

Jofrinho, como era do seu feitio, levantou a usou da palavra:

- Gostaria nesse instante de saber cantar ou pelo menos declamar, mas Deus não me deu essa dádiva. Contudo, farei apenas a citação de um refrão de uma obra prima do grande cantor e compositor, Chico Buarque de Holanda. E lascou:

"Joga pedra na Geni.
Joga bosta na geni.
Ela é feita pra apanhar,
Ela é boa de cuspir.
Ela dá pra qualquer um.
Maldita Geni!"

O silêncio foi quase sepulcral. Todos pairaram constrangidos, boquiabertos, pasmos, perplexos... Até que foi ouvida a voz indignada da influente diretora - a Doutora Geni - dirigida para Jofrinho:

- Considere-se não admitido no nosso Banco. E, por favor, suma da minha frente imediatamente

(Com essa mancada Jofrinho se fu...)

 

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