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José Ribamar Viegas

José Ribamar Viegas é maranhense, reside em Brumado e escreve crônicas para o Jornal Tribuna do Sertão. Ultimamente esteve sumido por conta da dedicação ao livro "Acredite se quiser", de sua autoria, lançado em 2009.

SÓ SE FOR AGORA!

Postado por José Ribamar Viegas em 06.06.2010

Dona Silvinha era o tipo de esposa que todo marido sapiente gostaria de ter. Charmosa, educada, prestativa, atuante, comunicativa, influente, religiosa (não perdia missas aos domingos), caridosa, muito respeitada na comunidade onde morava. Na cama Dona Silvinha se multiplicava: - era banho de gato, canguru perneta, lambretinha, muçurana na toca, perereca engasgada, frango assado... até papai e mamãe para variar. Em suma, Dona Silvinha era uma dama na sociedade e uma prostituta na cama. E o felizardo dos préstimos amorosos de Dona Silvinha chamava-se Mundoca, o marido. - Já não era a toa que Mundoca vivia sorrindo até com dor de dente.

Contudo, Dona Silvinha não chegava ser uma ninfomaníaca. Ela conseguia conter-se diante dos olhares desejosos de outros homens, até mesmo dos assédios românticos de Mundoca - aquela coisa de beijinhos, apertinhos inoportunos - principalmente se não estivesse a sós com ele. Mas, entre quatro paredes ela não aguentava ver o marido em trajes menores que logo chegava junto usando a "mão boba" para ativá-lo. Mundoca, literalmente, deitava e rolava. Curtia a autoestima de ter para si uma joia rara que todo homem gostaria de ter. Uma mulher bonita, de conduta impoluta na sociedade e de muitos artifícios no leito. Para Mundoca, Dona Silvinha era uma dádiva. Um prêmio de loteria só dele.

Foi na manhã de um sábado. Dona Silvinha havia saído para o supermercado e deixado o marido na garagem da casa, metido num macacão azul, tentando regular o motor do seu FIAT-147. Não conseguindo a regulagem perfeita do carro, Mundoca convocou o mecânico Duricão (negro, alto e forte), que também trajava um macacão azul. Mundoca entrou em casa deixando Duricão na garagem fazendo a regulagem do motor do carro.

Dona Silvinha voltou das compras e ao chegar à garagem da casa, deparou-se com aquela criatura vestido num macacão azul, de costas, cabeça e tronco enfiado no capuz do carro, pernas abertas e fundilho passando dos joelhos. Ela não teve dúvida que se tratava do marido. A digníssima senhora não se conteve. De ponta de pé, aproximou-se por trás, certificou-se de não haver mais ninguém por perto, meteu a mão entre pernas do macacão, pegou por baixo, deu duas balançadas (até pelo peso ela deveria sacar que não tratava de Mundoca), levantou a "cachopa" e, assumindo a sua postura de dadivosa do amor, cochichou maliciosamente:

- Benzinhoooo, vamos botar essa coisa linda para funcionar!...

Tal qual um bote lateral de um crocodilo faminto para alcançar a presa, Duricão sacou a cabeça de dentro do capuz do carro e, com os olhos esbugalhados com a esplêndida surpresa, prontamente respondeu:

- Só se for agora!

Quando Mundoca voltou à garagem, Duricão já havia saído para testar o FIAT-147, levando de carona a prendada Silvinha, encantada com a baita disposição do mecânico.

(Quem nasce para rainha, majestade é)

 

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