Fabiano Cotrim
É professor e atualmente diretor do Instituto de Educação Anísio Teixeira em Caetité. Membro da Academia Caetiteense de Letras (cadeira Luís Cotrim), Mano, como é conhecido, gosta mesmo é de escrever poesias. Desde os tempos de Maurício Lima, ainda batucando na sua velha Olivetti Lettera 32, colabora com o Jornal Tribuna do Sertão, sempre nos mandando crônicas.
A casa do urânio
Postado por Fabiano Cotrim em 11.07.2010
Fui visitar o Espaço I.N.B., que é como a empresa de urânio intitula o belo casarão situado na Praça da Catedral e que agora serve, sobretudo, como mais um ponto de convencimento sobre as maravilhas da energia nuclear. Da visita restou a satisfação de ver aquele patrimônio público enfim preservado, e, diga-se de passagem, muito bem preservado. Uma reforma em regra, quase uma restauração, e a casa imponente ressurge linda e bela como em tempos muito distantes. Ai o mérito da INB naquele empreendimento, o maior mérito. No mais, uma exposição acanhada de reproduções em plástico de antigas fotografias da cidade, idem para alguns documentos históricos; uma modesta exposição de réplicas de alguns inventos do gênio da Renascença, Leonardo Da Vinci.
Entretanto, no andar superior da casa, a INB preparou um show de imagens e números e materiais diversos, tudo calculadamente arranjado de forma que o visitante passeie pelo fantástico, seguro, limpo e ecologicamente correto mundo da energia nuclear! Ai sim, ai os senhores do urânio investiram bem mais tempo e dinheiro e as telas de plasma exibem todo tipo de informação sobre o ciclo do mineral que se não dá nome, ao menos empresta sobrenome para aquele tão propalado espaço. A casa do urânio, isto sim, é o que temos no antigo Hotel Caetité. Quem não souber nada sobre urânio ou energia nuclear, quem só se fundar nas informações disponíveis na casa do urânio vai jurar de pés juntos que não, não há e nunca houve nenhum perigo na mineração, industrialização, transporte e enriquecimento de urânio. Ali, nenhuma linha, nenhuma foto, nenhum gráfico sequer faz alusão aos muitos e mortíferos acidentes envolvendo o uso desse mineral e que abundam na história da humanidade; que são tão próximos, tão conhecidos de todos nós, caetiteenses.
Uma pena. O dinheiro público empregado naquele lugar, dada a sua fonte, certamente deveria ter sido investido na propagação das vantagens alegadas por muitos cientistas para o uso pacífico da energia nuclear. Mas por que público, exatamente por isto, jamais poderia ser utilizado como forma de alienação do público. E mostrar ao público, valendo-se para tanto do dinheiro público, apenas um lado de uma questão polêmica por natureza como é o caso da energia nuclear, ainda mais a título de ciência, tecnologia ou cultura, não é ciência, não é tecnologia e nem é cultura, é tão somente alienação, mais nada.
29/05/2010
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