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Aurélio Rocha

É médico, reside na cidade mineira de Itajubá e assina a Coluna Carta das Gerais no Jornal Tribuna do Sertão.

Um Onze...

Postado por Aurélio Rocha em 29.11.2009

Estávamos nós a olhar o céu antes das seis da manhã - obrigatoriamente estamos sempre às sete horas em sala de aula - e o dia se apresentava como se estivesse em estado de luto! Havia um silêncio que "até doía" naquele momento, já que pombas fogo-pagou, maritacas e até seriema faziam a festa no morro ainda virgem frente á nossa casa. De repente olhamos a folhinha e estava lá 11 de setembro. O tempo nos faz pensar sempre em fatos porque a história é contada através deles. E o ONZE de setembro, ano 2001, veio à nossa lembrança porque o mundo foi abalado, fissurado de maneira marcante, e será difícil vedar as rachaduras abertas. A intolerância do homem, "do bicho homem" marcou naquele dia toda a humanidade. E passamos a pensar em quantas vidas, que nada haviam feito de mal, simplesmente viviam aqueles momentos e foram ceifadas? Quantas esperanças desceram em forma de sangue pelo Rio Potomac? Os amores que encheram mentes e corações a palpitarem cheios de esperanças foram parados de repente por ataques insanos, suicidas, em nome de "um Deus"...

Ficamos à porta da garagem, esperando o motor do carro a esquentar e a olhar o movimento das ralas nuvens que se deslocavam e não sabemos para onde.

E olhando o céu, vendo surgir os primeiros raios de sol viajamos ao Paramirim e ficamos na porta da "minha casa" e entabulamos conversa com personagens que já se foram: o "velho" Aurélio, Joaquim Martins e Ulysses Cayres de Britto, além do sempre presente Enésio Oliveira. E, então, nos recordamos de uma conversa que ouvimos entre seis e oito de agosto de 1946 - tínhamos nove anos - e eles comentavam as notícias ouvidas pelo rádio de que duas bombas atômicas haviam explodido em Nagasaki e Hiroshima, lá no Japão onde nós nem fazíamos idéia de quão distante. E a sentença do "velho Aurélio": "O mundo não será mais o mesmo a partir de agora" e ele tinha absoluta razão, parecia até ser "vidente". Procuro agora neste 11 de setembro, a ajuda deles: o "velho" Aurélio a consertar os óculos como a limpar lágrimas; Joaquim Martins a fechar mais ainda os olhinhos; "seu" Ulysses erecto, mãos para trás, chapéu na cabeça porque se dirigia à sua loja lá na Praça Santo Antônio, tez franzida; "seu" Enésio, vizinho de porta, com careca luzidia, olhos negros e perquiridores, a burilar as mãos... Nenhum deles poderia, aqui, neste momento em que nos encontramos perdidos na Serra da Mantiqueira, que uma conversa rápida fosse entabolada.

Nós não fizemos nenhuma oração no momento. Sentimos que o motor do carro já estava "no ponto" e então partimos. No silêncio, sem o CD habitual ou mesmo a rádio local, lá fomos para a rotina. Na sala de aula, frente a 60 doutorandos, perguntamos qual o significado do dia: apenas um dentre todos se recordou. A maioria dos presentes tinha apenas idade entre 18 e 20 anos. E nós falamos sobre o acontecido não apenas do 11 de setembro, mas, também sobre a Segunda Guerra Mundial que teve início num mês de setembro, além da data do seu término e da estupidez da explosão da primeira Bomba-A. E falamos de maneira didática, mas não conseguimos controlar o máximo das nossas emoções. Assim como iniciamos o dia com o silêncio da manhã, dedicamos um minuto de silêncio que foi rigorosamente seguido. Depois o tema do dia: "Envelhecimento da Mulher, Climatério e Menopausa". Mas passamos o dia "macambúzios"...

 

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