Aurélio Rocha
É médico, reside na cidade mineira de Itajubá e assina a Coluna Carta das Gerais no Jornal Tribuna do Sertão.
Morte do Velhinho...
Postado por Aurélio Rocha em 11.05.2010
Temos visto muita coisa - e anotado algumas - durante a vida de médico em áreas distintas, mas, como dizia minha sábia avó "gente é gente cara e nariz pra frente..." e coisas acontecem. E estávamos de plantão - não gostamos, mas fazemos - e chega um paciente que foi triado lá no UPA (Unidade de Pronto Atendimento) nome dado ao que antigamente era "Serviço de Assistência, depois virou Pronto Socorro, etc". Um cidadão bem idoso. Na ficha estava anotado 103 anos! Como acompanhante um filho (já velhinho como nós). Paciente examinado, caso de gravidade extrema, falência cardio-pulmonar. Internado. No leito a enfermagem providenciou puncionar a veia e foram três tentativas, só ficando como se desejava na terceira tentativa. Providências tomadas, mas se sabia de ante-mão que o ancião que nasceu quando Caetité fazia 97 anos marcharia para óbito. E o registro foi alguns minutos após a admissão no leito hospitalar. Junto à cama, o filho, zeloso, alquebrado pelo tempo vivido também (83 anos). Quando o médico comunicou que o cidadão havia falecido a reação do filho foi digna de registro:
- Mas teria que morrer o seu pai porque a enfermeira não sabe nem pegar uma veia!...
Houve um silêncio - não apenas em respeito ao morto - mas a inusitada afirmação do filho "zeloso sem dúvida". Mas ele não ficou só nisso e com veemência mesmo, até certo grau de revolta soltou outra:
- Se o doutor sabia que ele ia morrer porque não falou logo para a gente levar ele para casa?... Ele disse que queria só morrer na casa dele...
O doutor não tinha explicação a dar por que... Sabe lá por quê? Simplesmente tocou no ombro do filho que realmente sentia a morte do pai e foi providenciar o atestado competente que é "privativo do médico e intransferível dever". Com seus botões o "doutor", lá no jardim do hospital, ficou a pensar o que ele poderia ter feito além de atender, digitalizar e depois assinar o atestado? Afinal poucos conseguem viver 103 anos... Vida de médico é fogo, como dizia antigamente João Ubaldo Ribeiro no "Jornal da Bahia" na coluna "É Fogo!".
"Estórias" que acontecem no dia-a-dia da vida de quem labuta em hospitais são muitas. Claro que na maioria não são hilárias, mas às vezes acontecem, uma com pacientes, acompanhantes, funcionários, médicos, etc. afinal nas dependências dos "nosocômios" circulam seres humanos. Pois bem - assim fala o meu compadre Dr. Zequinha lá do Caetité - um médico de qualidade impar como pessoa e profissional, clínico de renome na região, começou a atender uma paciente, então necessitava que a mesma, vestida em calça justa e da moda, trocasse as vestes por uma bata apropriada para que fosse examinada como deve. Orientou a ir atrás de um biombo e se ocupou em arrumar algo sobre a mesa. Foi então que ouviu a paciente lhe perguntar:
- Doutor, é para tirar a calça antes ou depois da calcinha?
Houve um momento de silêncio - é o que consta - vindo então a resposta do já até impaciente doutor:
- Se a senhora conseguir retirar a calcinha antes da calça, será uma grande proeza e, então, vou mandá-la para exibição lá no "Faustão"...
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